domingo, 29 de novembro de 2015

O ajuste necessário no crédito

Um dos temas menos debatidos pela maioria dos economistas macro é o crédito. A maioria dos modelos macroeconômicos tende a tratar o processo de intermediação de crédito como neutro para a economia, pois o que importa, na visão deles, ocorreria na economia real, nas trocas de bens e serviços por dinheiro. Crédito seria apenas um meio através do qual a política monetária atua sobre a demanda. Pode ser que no longo prazo esta visão esteja correta, mas no curto prazo eu duvido.

Crédito é o processo pelo qual uma parte relevante da poupança acumulada pelas pessoas ( parte da renda das famílias que não é gasta em consumo, mas depositada em bancos ou aplicada em fundos e títulos de crédito, etc) é transferida para aqueles que:

a. querem fazer investimentos produtivos nos seus negócios;
b. querem antecipar consumo sobre renda futura.

Imagine uma economia simples que produz anualmente R$ 10.000,00 em bens e produtos (PIB), que tem:

- um individuo poupador que tem R$ 6.000,00 depositados no Banco;
- um empresário e um consumidor alavancados, que devem, cada um, R$ 3.000,00 ao banco.


Assuma também que não haja inflação, para simplificar as contas apenas, que a população ocupada não cresça e que a produtividade da economia cresça na mesma velocidade do aumento da demanda. Ou seja, se não houver nenhuma demanda adicional, a economia ficará estagnada em R$ 10 mil de PIB. 


Se o consumidor quiser consumir mais  R$ 100,00 em produtos, ele precisará tomar emprestado mais R$ 100,00 no Banco. Se o empresario quiser investir mais R$ 100,00 para ampliar a produção numa fábrica, ele precisará tomar emprestado mais R$ 100,00 no Banco. O Banco para poder emprestar estes R$ 200,00  reais, precisará captar depósitos adicionais de R$ 200,00 junto ao poupador. Neste caso, como a economia total produz inicialmente R$ 10.000,00 em bens num ano (PIB), estes empréstimos geram demanda adicional e, portanto, produção adicional de 2% do PIB. Ou seja, a economia cresce 2% este ano e passa a produzir, em termos reais,  R$ 10.200,00 em bens.

No ano seguinte, para que a economia cresça os mesmos 2%, ou seja, para que o PIB vá para R$ 10.404,00, o empresário precisa tomar emprestado mais uma vez os mesmos R$ 100,00 que tomou no anterior e mais R$ 102,00. O mesmo deve acontecer com o consumidor, que vai tomar emprestado R$ 202,00 no Banco. Assim gerar-se-á uma demanda adicional de R$ 404,00 por bens de consumo e de capital. Nosso poupador desta forma precisará agora guardar R$ 404,00 no Banco para financiar este aumento de demanda no valor de R$ 404,00.

A produção global então sobe para R$ 10.404,00 em resposta ao aumento da demanda, como queríamos ( os R$ 10 mil iniciais mais R$ 404,00 de demanda nova). Portanto, o PIB cresceu mais 2% outra vez.

Contudo, o endividamento total subiu bastante. De R$ 6.000,00 no início para R$ 6.604,00 em dois anos:

a. Consumidor: R$ 3.000,00 no início + R$ 100,00 no ano 1 + R$ 202,00 no ano 2 = R$ 3.302,00
b. Empresário:  R$ 3.000,00 no início +  R$ 100,00 no ano 1 + R$ 202,00 no ano 2 = R$ 3.302,00

Dando um total de R$ 6.604,00, ou seja, 63,5% do PIB de R$ 10.404,00. 

Desta forma, o endividamento total da economia saiu de 60% do PIB ( R$ 3 mil devidos pelo consumidor + R$ 3 mil devidos pelo empresário sobre uma economia que produzia R$ 10.000,00), para 63,5% do PIB em dois anos. Temos, portanto, que para manter o PIB crescendo 2% a.a., o endividamento precisa crescer 5,8% acima da taxa de crescimento do PIB a cada dois anos, ou 2,9% a.a. acima da taxa de do crescimento do PIB.

Não precisa ser um gênio das finanças para chegar a conclusão que este exercício leva a uma situação insustentável de endividamento, tanto por parte de nosso consumidor como de nosso empresário. Suas dívidas saltaram mais de 10% em dois anos em termos reais. Em breve o endividamento destas pessoas será tão grande que, ou eles reduzem a sua taxa de crescimento, ou irão quebrar.

O gráfico abaixo mostra a elevação do endividamento privado no Brasil desde 2007, como % do PIB:





Vemos que ele vem crescendo consistentemente desde 2007, tendo um período de crescimento mais acelerado entre 2007 e 2009 em amarelo, e mais recentemente um período estagnação em vermelho.

Da mesma forma que em nosso exercício acima, fica claro que tal trajetória não é sustentável a longo prazo. Não dá para ficar crescendo a alavancagem de nossa economia ( dívida total sobre renda das famílias e empresas) neste ritmo para sempre

Porém, já se nota uma forte queda da taxa de crescimento real do crédito na economia ( deflacionada pelo IGP-DI), como mostra o gráfico abaixo:







Vemos que desde 2008, o endividamento de nossa economia cresceu a mais de 11% a.a. em termos reais na média (reta vermelha horizontal). Vemos em cinza que a taxa de crescimento real anual do crédito privado no Brasil vem caindo desde 2009. Também vemos em vermelho a forte desaceleração ocorrida este ano.

Podemos ver no gráfico abaixo que nossa taxa de crescimento econômico vem se desacelerando pari e pasu com a desaceleração da alavancagem interna desde 2010:










E que, apesar do crédito ainda estar crescendo em termos reais, o PIB está encolhendo a taxas próximas a 5% a.a.. ( vermelho)

Alguns populistas desinformados sugerem que precisamos aumentar a oferta de crédito na economia e voltar a acelerar a  taxa de crescimento real do crédito. De fato, a desaceleração da taxa de crescimento do crédito tem sido muito rápida, o que está aprofundando a recessão. Contudo, o que estes desavisados oportunistas pseudo desenvolvimentistas se esquecem é que esta desaceleração da taxa de crescimento do crédito é parte do ajuste macro necessário, pois não é sustentável crescer o crédito interno a taxas de 11% a.a., com o PIB crescendo em média abaixo de 3% a.a. em termos reais.

Estes 55% do PIB em crédito bancário, somado ao endividamento externo das empresas e junto ao mercado de capitais, chegam a 75% do PIB. Este número em economias mais avançadas passa dos 100% do PIB, o que indicaria que teríamos espaço para aumentar bastante a alavancagem interna. Porém, se esquece quem faz esta comparação que os juros reais praticados nas economias mais avançadas estão ao redor de zero em função da grande crise global, e que, mesmo em situação normal, tais taxas não ficam acima da taxa de crescimento do PIB. No caso brasileiro, nossos juros reais de médio prazo estão acima de 6% a.a., mesmo com nosso PIB afundando 5% a.a., em função do parcial descontrole fiscal e monetário que vivemos. Logo, enquanto os nossos juros reais não convergirem para níveis próximos à taxa potencial de crescimento de nossa economia, 2,5% ou 3% a.a., não poderemos ampliar o crédito de forma mais acelerada, como risco de causar uma crise bancária e de insolvência generalizada das empresas e pessoas físicas.


E para cair estes juros precisamos estabilizar os gastos públicos, aumentar  o saldo fiscal do governo e trazer a inflação para o centro da meta. Sem isto, qualquer tentativa de aumentar o crédito de forma artificial irá provocar uma onda de inadimplência ou nos levar a taxas de inflação cada vez maiores.



Logo, vamos fazer a lição de casa e promover um ajuste fiscal de longo prazo???















Um comentário:

  1. Realmente, o crédito é um fator muito mais importante do que os economistas normalmente acreditam.
    Ricardo, gostaria de saber mais sobre esse assunto, será que você poderia me dar algumas sugestões de livros ou lugares que poderia procurar para aprender mais? Fiquei muito interessado depois de ver o site do Ray Dalio que fala exatamente sobre o ciclo de crédito e a sua dinâmica.

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