terça-feira, 29 de setembro de 2015

Precisamos falar sobre a PETROBRÁS....

Creio que muito dos leitores leram o livro ou viram o filme Precisamos falar sobre Kevin:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-146626/trailer-19248715/





Pois bem, acho que chegou a hora de termos uma conversa séria sobre a nossa gloriosa Petrobrás, antes que ela se transforme num problema ainda maior.

Recente relatório do Bank of America sobre a Petrobrás recomenda a venda de títulos da dívida da empresa, cujos preços se encontram, em alguns casos, abaixo de 60% do seu valor de face. Ou seja, o banco acredita que, mesmo a estes preços, tais papéis não compensam o risco.  Não pretendo ( e não desejo) endossar ou criticar a opinião do Banco, tampouco recomendar a compra ou venda de tais papéis, mas apenas mostrar que a situação financeira da empresa está crítica. 

Segundo cálculos do BofA, o preço da gasolina vendida no Brasil está em linha com os preços internacionais, mesmo considerando  a enorme desvalorização do R$ que tivemos nos últimos meses. E o preço do Diesel no Brasil se encontra acima dos preços praticados lá fora. Apesar disto, a situação da empresa é bastante delicada.

Ao câmbio de R$ 4,00, o BofA estima que a empresa deve gerar este ano o equivalente a US$ 22 bi em caixa nas suas operações. Isto deve ser suficiente para cobrir seus investimentos de capital na produção, que devem ficar ao redor dos US$ 22 bi, número bem inferior aos US$ 48 bi investidos em 2013.  Contudo, este ano a empresa precisa pagar cerca de US$ 6 bi de juros líquidos em função de seus US$ 130 bi em dívidas. Ou seja, com base nestes dados podemos concluir que a geração de caixa atual é insuficiente para cobrir o serviço dos juros da dívida, muito menos a sua amortização que em 2016 será de US$ 12 bilhões.

A manutenção deste cenário implicará no endividamento crescente da empresa, uma vez que será preciso tomar novos empréstimos no valor de US$ 6 bilhões por ano para quitar os juros devidos. Ou seja, a dívida líquida da empresa (Dívida total - caixa da empresa), que em 2014 somava US$ 106 bi, irá subir este ano para US$ 112 bi.

Segundo as projeções do BofA, caso os preços dos derivados de petróleo fiquem onde estão e o câmbio se estacione ao redor dos R$4,00, a relação dívida / geração de caixa operacional ( Dívida Líquida / Ebitda) que serve para medir alavancagem do negócio, deve fechar este ano em 5,1 x.  Esta alavancagem é bem superior a de outras petrolíferas latino americanas, como PDVSA, PEMEX e ECOPETROL, onde não passa de 2,5 x. Precisaríamos reduzir a dívida total em 40% para chegarmos a este nível.

Para reduzir o endividamento, a empresa precisará:

  • aumentar geração de caixa livre através:
    • redução de despesas com folha de pagamento e contratos de fornecimento;
    • aumento dos preços dos derivados de petróleo no Brasil, como gasolina e diesel;
    • redução dos planos de investimentos de capital;
    • aumentar produção, que nos últimos anos tem subido cerca de 4% a.a., apesar dos investimentos bilionários feitos nos últimos 8 anos.
  • vender ativos, tais como:
    • BR Distribuidora ( postos de gasolina)
    • Investimentos no exterior
    • Poços em fase inicial de produção no pré-sal.
Este processo de desalavancagem precisa ser rápido, uma vez que a empresa hoje precisa pagar juros de mais de 10% a.a. acima da variação do dólar para poder rolar suas dívidas no exterior. Em 2016 vencem US$ 12 bi em dívidas da empresa, e seu caixa deve terminar 2015 ao redor de US$ 16 bi, de acordo com os dados levantados pelo BofA. Logo, é preciso agir rapidamente.
 
Mas quem sãos credores da empresa? O BofA estima que:
  • 42% da dívida esteja nas mãos de investidores internacionais na forma títulos de dívida. Com o rebaixamento recente da empresa, muitos destes investidores precisaram vender tais papéis que perderam o grau de investimento. O efeito disto para a empresa aparece na elevação do seu custo de captação de 5% para mais de 10% a.a. daqui para frente.
  • 28% desta dívida está nas mãos de bancos internacionais, que, em virtude do rebaixamento da empresa, precisarão aumentar as provisões de crédito, o que levará à redução na oferta deste tipo de crédito;
  • 24% nas mãos de bancos locais, com forte concentração nos bancos públicos, BNDES, CEF e BB, que devem estar próximos dos seus limites legais de concentração de risco ( regras do BC) no que tange à Petrobrás.
Resumo: a empresa terá muitas dificuldades em rolar sua dívida atual, o que se tornará crítico caso sua alavancagem continue a subir. Lembro que em 2012 o endividamento líquido da empresa estava ao redor de US$ 72 bi e em junho último bateu US$ 104 bi, crescimento de 40% em 2 anos e meio...

Para agravar a situação, a Petrobrás é alvo de ações movidas por investidores e fornecedores internacionais que se sentiram prejudicados pela empresa no seu envolvimento com a corrupção bilionária apurada na operação Lava-jato. Tais ações poderão demandar da empresa indenizações bilionárias a serem pagas aos investidores, o que pioraria ainda mais o seu endividamento.

Uma crise de liquidez na Petrobrás teria consequências inimagináveis para nossa economia. Sua dívida total passa hoje de R$ 500 bi, o equivalente a 9% do PIB. São milhares de fornecedores que hoje dependem exclusivamente dos contratos com a empresa para levantar recursos junto ao sistema bancário e que seriam profundamente afetados numa situação destas. Vários destes fornecedores, também envolvidos na Lava-Jato, precisariam recorrer a Recuperação Judicial, o que aumentaria dramaticamente a inadimplência junto aos bancos locais, travando por completo a oferta de crédito. 

Um evento desta magnitude causaria uma reação em cadeia no mercado de crédito interno e externo para empresas brasileiras, levando a um verdadeiro crash de crédito que, a esta altura da recessão, nos colocaria numa depressão econômica, nos moldes da que vimos nos países periféricos europeus.

Está na hora do governo considerar seriamente algumas alternativas, como:
  • aumento do preço dos combustíveis;
  • cortes mais drásticos de despesas e de investimentos;
  • aumento de capital da empresa via conversão de dívida ou oferta de novas Ações;
  • venda de ativos do pre sal;
  • levantar recursos via securitização da produção futura de petróleo do pre-sal;
  • subordinação dos empréstimos dos bancos públicos, BNDES e CEF, ao pagamento das outras dívidas seniores da empresa;
  • venda do controle da BR Distribuidora;
  • aval do Tesouro Nacional em novas emissões de debêntures da empresa.
O governo, controlador da empresa, não pode ignorar a situação da empresa e precisa agir. A Petrobrás, em função das políticas equivocadas dos últimos anos, ficou grande demais para quebrar. Corremos hoje o risco de transformar a nossa Petrobrás, orgulho nacional, no nosso subprime. Ela está se tornando gradativamente uma ameaça para a estabilidade financeira. Se não abrirmos logo os olhos, vamos um dia acordar com nosso sangue espalhado pelo chão. 

Ainda há tempo para reverter este quadro. Porém é preciso encarar de frente as dificuldades, escancarar os problemas e agir com determinação.







3 comentários:

  1. Como conciliar interesses de uma empresa que ao mesmo tempo tem a tarefa de como parte do governo: administrar um monopólio, gerar receitas para o governo, promover o desenvolvimento do país e gerar empregos, regular o mercado doméstico de derivados, controlar preços e a inflação. E como empresa aberta: oferecer dividendos aos acionistas, lucrar, ser eficiente e transparente. Não seriam responsabilidades demais para uma empresa que cresceu demais? Não seria a hora de abrir o mercado, vender parte da empresa e dividir a responsabilidade com o setor privado de maneira controlada?

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  2. sim. seria. mas vai convencer os funcionarios publicos da petrobras! e os politicos? e a esquerda cega?

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  3. sim. seria. mas vai convencer os funcionarios publicos da petrobras! e os politicos? e a esquerda cega?

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