terça-feira, 29 de setembro de 2015

Precisamos falar sobre a PETROBRÁS....

Creio que muito dos leitores leram o livro ou viram o filme Precisamos falar sobre Kevin:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-146626/trailer-19248715/





Pois bem, acho que chegou a hora de termos uma conversa séria sobre a nossa gloriosa Petrobrás, antes que ela se transforme num problema ainda maior.

Recente relatório do Bank of America sobre a Petrobrás recomenda a venda de títulos da dívida da empresa, cujos preços se encontram, em alguns casos, abaixo de 60% do seu valor de face. Ou seja, o banco acredita que, mesmo a estes preços, tais papéis não compensam o risco.  Não pretendo ( e não desejo) endossar ou criticar a opinião do Banco, tampouco recomendar a compra ou venda de tais papéis, mas apenas mostrar que a situação financeira da empresa está crítica. 

Segundo cálculos do BofA, o preço da gasolina vendida no Brasil está em linha com os preços internacionais, mesmo considerando  a enorme desvalorização do R$ que tivemos nos últimos meses. E o preço do Diesel no Brasil se encontra acima dos preços praticados lá fora. Apesar disto, a situação da empresa é bastante delicada.

Ao câmbio de R$ 4,00, o BofA estima que a empresa deve gerar este ano o equivalente a US$ 22 bi em caixa nas suas operações. Isto deve ser suficiente para cobrir seus investimentos de capital na produção, que devem ficar ao redor dos US$ 22 bi, número bem inferior aos US$ 48 bi investidos em 2013.  Contudo, este ano a empresa precisa pagar cerca de US$ 6 bi de juros líquidos em função de seus US$ 130 bi em dívidas. Ou seja, com base nestes dados podemos concluir que a geração de caixa atual é insuficiente para cobrir o serviço dos juros da dívida, muito menos a sua amortização que em 2016 será de US$ 12 bilhões.

A manutenção deste cenário implicará no endividamento crescente da empresa, uma vez que será preciso tomar novos empréstimos no valor de US$ 6 bilhões por ano para quitar os juros devidos. Ou seja, a dívida líquida da empresa (Dívida total - caixa da empresa), que em 2014 somava US$ 106 bi, irá subir este ano para US$ 112 bi.

Segundo as projeções do BofA, caso os preços dos derivados de petróleo fiquem onde estão e o câmbio se estacione ao redor dos R$4,00, a relação dívida / geração de caixa operacional ( Dívida Líquida / Ebitda) que serve para medir alavancagem do negócio, deve fechar este ano em 5,1 x.  Esta alavancagem é bem superior a de outras petrolíferas latino americanas, como PDVSA, PEMEX e ECOPETROL, onde não passa de 2,5 x. Precisaríamos reduzir a dívida total em 40% para chegarmos a este nível.

Para reduzir o endividamento, a empresa precisará:

  • aumentar geração de caixa livre através:
    • redução de despesas com folha de pagamento e contratos de fornecimento;
    • aumento dos preços dos derivados de petróleo no Brasil, como gasolina e diesel;
    • redução dos planos de investimentos de capital;
    • aumentar produção, que nos últimos anos tem subido cerca de 4% a.a., apesar dos investimentos bilionários feitos nos últimos 8 anos.
  • vender ativos, tais como:
    • BR Distribuidora ( postos de gasolina)
    • Investimentos no exterior
    • Poços em fase inicial de produção no pré-sal.
Este processo de desalavancagem precisa ser rápido, uma vez que a empresa hoje precisa pagar juros de mais de 10% a.a. acima da variação do dólar para poder rolar suas dívidas no exterior. Em 2016 vencem US$ 12 bi em dívidas da empresa, e seu caixa deve terminar 2015 ao redor de US$ 16 bi, de acordo com os dados levantados pelo BofA. Logo, é preciso agir rapidamente.
 
Mas quem sãos credores da empresa? O BofA estima que:
  • 42% da dívida esteja nas mãos de investidores internacionais na forma títulos de dívida. Com o rebaixamento recente da empresa, muitos destes investidores precisaram vender tais papéis que perderam o grau de investimento. O efeito disto para a empresa aparece na elevação do seu custo de captação de 5% para mais de 10% a.a. daqui para frente.
  • 28% desta dívida está nas mãos de bancos internacionais, que, em virtude do rebaixamento da empresa, precisarão aumentar as provisões de crédito, o que levará à redução na oferta deste tipo de crédito;
  • 24% nas mãos de bancos locais, com forte concentração nos bancos públicos, BNDES, CEF e BB, que devem estar próximos dos seus limites legais de concentração de risco ( regras do BC) no que tange à Petrobrás.
Resumo: a empresa terá muitas dificuldades em rolar sua dívida atual, o que se tornará crítico caso sua alavancagem continue a subir. Lembro que em 2012 o endividamento líquido da empresa estava ao redor de US$ 72 bi e em junho último bateu US$ 104 bi, crescimento de 40% em 2 anos e meio...

Para agravar a situação, a Petrobrás é alvo de ações movidas por investidores e fornecedores internacionais que se sentiram prejudicados pela empresa no seu envolvimento com a corrupção bilionária apurada na operação Lava-jato. Tais ações poderão demandar da empresa indenizações bilionárias a serem pagas aos investidores, o que pioraria ainda mais o seu endividamento.

Uma crise de liquidez na Petrobrás teria consequências inimagináveis para nossa economia. Sua dívida total passa hoje de R$ 500 bi, o equivalente a 9% do PIB. São milhares de fornecedores que hoje dependem exclusivamente dos contratos com a empresa para levantar recursos junto ao sistema bancário e que seriam profundamente afetados numa situação destas. Vários destes fornecedores, também envolvidos na Lava-Jato, precisariam recorrer a Recuperação Judicial, o que aumentaria dramaticamente a inadimplência junto aos bancos locais, travando por completo a oferta de crédito. 

Um evento desta magnitude causaria uma reação em cadeia no mercado de crédito interno e externo para empresas brasileiras, levando a um verdadeiro crash de crédito que, a esta altura da recessão, nos colocaria numa depressão econômica, nos moldes da que vimos nos países periféricos europeus.

Está na hora do governo considerar seriamente algumas alternativas, como:
  • aumento do preço dos combustíveis;
  • cortes mais drásticos de despesas e de investimentos;
  • aumento de capital da empresa via conversão de dívida ou oferta de novas Ações;
  • venda de ativos do pre sal;
  • levantar recursos via securitização da produção futura de petróleo do pre-sal;
  • subordinação dos empréstimos dos bancos públicos, BNDES e CEF, ao pagamento das outras dívidas seniores da empresa;
  • venda do controle da BR Distribuidora;
  • aval do Tesouro Nacional em novas emissões de debêntures da empresa.
O governo, controlador da empresa, não pode ignorar a situação da empresa e precisa agir. A Petrobrás, em função das políticas equivocadas dos últimos anos, ficou grande demais para quebrar. Corremos hoje o risco de transformar a nossa Petrobrás, orgulho nacional, no nosso subprime. Ela está se tornando gradativamente uma ameaça para a estabilidade financeira. Se não abrirmos logo os olhos, vamos um dia acordar com nosso sangue espalhado pelo chão. 

Ainda há tempo para reverter este quadro. Porém é preciso encarar de frente as dificuldades, escancarar os problemas e agir com determinação.







quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Taxa de câmbio real bate maior nível desde 2002

Um dos conceitos econômicos  que nos ajudam a ver se a nossa moeda está cara ou barata  é a taxa de câmbio real. Tomando como base alguma data passada, verifica-se quanto os preços domésticos subiram desde então usando o índice de inflação no Brasil.  Faz-se a mesma coisa com as inflações dos países com os quais temos comércio internacional, calculando a sua média de acordo com a participação de cada país no nosso fluxo de comércio. Chega-se aí ao diferencial entre a nossa inflação local e a inflação de nossos parceiros em tal período período.

Calcula-se então a desvalorização nominal de nossa moeda no período vs. a média moedas de nossos parceiros e desconta-se dela o diferencial de inflação para chegar na variação real da nossa taxa de câmbio.

Se fizemos este cálculo mensalmente, podemos gerar um gráfico da evolução de nossa taxa de câmbio real, tomando-se como base alguma data no passado. No caso do nosso R$, o BC construiu uma série de dados que é mostrada abaixo:







O gráfico preto mostra a evolução de nossa taxa de câmbio real mensal desde 1988, calculada pelo BC conforme descrevi acima. Para estimar o nível atual usei a taxa de câmbio de 4,10. O gráfico amarelo mostra sua média móvel de 12 meses. 

A reta cinza horizontal mostra a média da nossa taxa real de câmbio desde 1988. As retas horizontais, verde na parte inferior do gráfico e vermelha no alto, mostram níveis onde o desvio do câmbio real vis a vis sua média no período estaria acima de 2 desvios padrões, ou seja, são situações de desvios extremos.

Quanto mais próxima a linha preta estiver da linha horizontal verde mais desvalorizada estaria nossa moeda.  E quanto mais próxima a linha preta estiver da linha vermelha no topo, mais valorizado estaria nosso R$ diante das moedas de seus parceiros comerciais.

Vemos que desde 2011 (seta roxa), quando o nosso R$ atingiu um nível de valorização similar àquele prevalecente após o Plano Real (seta rosa), nossa moeda vem se desvalorizando de forma contínua.Vemos também que, de acordo com esta medida, o nosso  R$ estaria hoje (seta azul)  muito próximo aos níveis extremos de desvalorização ocorridos na crise de 2002 (seta marrom), véspera da posse de Lula. 

Ou seja, seria este o pico do dólar? Impossível afirmar. Porém podemos ver que nossa moeda sofreu um processo agudo de desvalorização nos últimos anos e que, portanto, devemos ter recuperado bastante de nossa competitividade externa.

Quais fatores impulsionaram esta desvalorização extrema do real?
  • Processo global de alta do dólar que ocorreu nos últimos meses, causado pela proximidade do início da normalização monetária nos EUA, 
  • Queda no preço de algumas commodities que exportamos, em função da desaceleração da economia Chinesa;
  • Forte elevação do prêmio de risco Brasil causado pela crise fiscal e política que nos atinge, que acaba aumentando a demanda por divisas.
Logo, para prever o que vai acontecer com o R$ daqui para frente, é preciso saber como estes 3 fatores acima irão se comportar daqui para frente, o que não é uma tarefa trivial.  Contudo, podemos esperar uma melhora substancial dos nossos saldos externos daqui para frente, por 3 razões:
  • Enorme capacidade ociosa existente na Indústria, o que cria espaço para a produção de bens voltados para o mercado externo ou para substituição de importações, sem criar pressões de custos, aliada à maior oferta de mão de obra:




  • Termos de troca ( preços dos bens exportados vs. importados), embora tenham caído bastante, ainda se encontram em nível superior àqueles prevalecentes em 2002:




  • Risco país, que embora tenha disparado recentemente, está bem inferior aos quase 2000 pontos atingidos quando da eleição do presidente Lula:




Ou seja, a menos que haja uma deterioração ainda maior no cenário interno ou uma elevação mais veloz dos juros nos EUA, é pouco provável que o dólar repita a valorização ocorrida nas últimas semanas. Mas, dada a volatilidade dos últimos dias, especular com isto é um exercício extremamente arriscado. 












quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Mais um que defende um programa fiscal de longo prazo

O economista Alexandre Schwartsman mandou bem em seu artigo e aponta a necessidade de um plano fiscal de longo prazo:

A vingança dos nerds

Questão fiscal requer um programa de longo prazo, e não um pacote conjurado num fim de semana


Caso desse ouvidos aos nossos keynesianos de quermesse, algum desavisado poderia imaginar que o país se engajou num enorme esforço fiscal, capaz inclusive de abalar os alicerces da nossa democracia. Como de hábito, só analistas que não se deram ao mínimo trabalho de checar os dados, tão certos que se encontram sobre a verdade do mundo, são capazes de acreditar nesta barbaridade.

Já os números mostram uma realidade bem distinta daquela que prevalece nos corações e nas mentes desse pessoal. O gasto federal, descontadas as transferências a Estados e municípios, atingiu R$ 625 bilhões de janeiro a julho de 2015, corrigidos pela inflação. No mesmo período de 2014 este gasto havia chegado a R$ 623 bilhões também ajustados à inflação, ou seja, apesar do mimimi, a verdade é que o gasto federal ficou aproximadamente constante no período.

Esta conclusão permanece mesmo se, em vez de utilizarmos o IPCA para fazer a correção inflacionária, usemos outra medida de inflação, mais próxima do PIB (o chamado "deflator implícito"). A única diferença no caso refere-se à necessidade de limitar a análise ao período até o segundo trimestre de 2015, última observação disponível para o deflator implícito.

Não é por outro motivo que meu amigo e colega colunista, Samuel Pessôa, afirmou recentemente que a política fiscal "até junho ainda se situava em terreno levemente expansionista".

Olhando à frente, não há muito que nos faça crer numa reversão desta tendência. O malfadado Orçamento de 2016 prevê crescimento das despesas acima da inflação. E, muito embora o pacote de ajuste alinhavado às pressas na semana passada contemple alguma contenção do gasto, não será suficiente para evitar novo aumento da despesa em 2016, mesmo na improvável hipótese de aprovação integral de todas as medidas.

Sim, o governo tem razão ao afirmar que não pode mexer em quase 90% das despesas, sejam elas obrigatórias, sejam elas discricionárias, porém não sujeitas ao contingenciamento (uma verdadeira contradição em termos), restando-lhe um espaço mínimo para gerenciar seu gasto. No entanto, não se trata de um problema novo; ao contrário, é uma questão que nos segue pelo menos desde a promulgação da Constituição em 1988, e que se tornou mais aguda a partir do fim da hiperinflação em 1994.

A propósito, é bom não esquecer que, há exatos dez anos, o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, sugeriu que o governo se engajasse num ajuste fiscal de longo prazo justamente para que pudesse lidar com este tipo de problema.

Esta proposta foi fulminada por ninguém menos do que a então ministra da Casa Civil e agora presidente da República, para quem o controle do gasto era "rudimentar", classificando a despesa corrente como "vida".

Se a ironia histórica quis que a presidente tivesse que sofrer o peso de seu desleixo, a triste verdade é que pagaremos juntos o preço de sua incúria. Perdemos dez anos e o problema é hoje ainda maior.

Não basta um pacote de medidas conjurado num fim de semana. O tratamento da questão fiscal no Brasil requer um programa de longo prazo que elimine vinculações, reforme a Previdência e imponha racionalidade ao gasto público. Não fazê-lo implica flertar com desastres que imaginávamos não mais ter que enfrentar no Brasil.

Mais um economista defendendo limite no gasto público

O Economista Chefe do Banco Itáu e ex BC , Ilan Goldfajn, deu uma ótima entrevista ao Valor de Hoje. Vale a pena ler:

http://www.valor.com.br/brasil/4237150/o-preco-da-paralisia

Veja trecho abaixo:

Valor: Qual seria a agenda possível a ser seguida neste momento? Goldfajn: Deveríamos aproveitar a oportunidade que se apresenta. Momentos difíceis, de crise, são aqueles em que você é capaz, talvez, de perceber que os problemas estruturais devem ser atacados. Colocar limite na despesa pública, fazer reformas da Previdência e ligadas ao mercado de trabalho, para que acordos entre patrões e empregados possam ser respeitados....

Este trecho é parte de conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link http://www.valor.com.br/brasil/4237166/paralisia-pode-levar-nova-decada-perdida-diz-ex-diretor-do-bc ou as ferramentas oferecidas na página. 

No pior dos três mundos: crescimento, déficit fiscal e carga tributária

Leiam o artigo interessante sobre situação fiscal do Brasil escrito por Monica de Bolle:

http://blogs.piie.com/realtime/?p=5156

Vejam este gráfico abaixo extraído do texto:



Nosso quadro é de déficit elevadíssimo ( Roxo), como na Índia, aliado a uma carga tributária elevada como na Turquia (amarelo).

Se  adicionarmos uma terceira dimensão, o  crescimento econômico, aí sim fica feio. Veja as taxas de crescimento anuais do segundo trimestre deste ano (comparado com o mesmo trimestre em 2013) destes três países:

  • Índia: + 7,6% a.a.
  • Turquia: + 3,8% a.a.
  • Brasil: - 2,6% a.a.


Resumo: temos crescimento negativo, déficit explosivo e carga tributária elevada.

Ou cortamos gastos públicos, ou vamos quebrar.

Entendeu PT?? Ou não?

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Inflação de equilíbrio nos papéis indexados dispara


Como saber se um papel pós fixado indexado à inflação é melhor que um papel com juros pré fixados do mesmo prazo e do mesmo emissor?

Os papéis pós fixados rendem uma taxa de real de juros, ou seja, uma taxa de rendimento acima da inflação futura. Tal taxa real precisa ser composta com a inflação que irá ocorrer ao longo da vida do papel para que possamos saber o seu rendimento nominal final. Só assim é possível comparar um papel pós fixado a um papel prefixado. Ou seja, só saberemos com certeza a resposta da pergunta que coloquei acima após o vencimento dos papéis analisados.

A taxa de inflação de equilíbrio (Breakeven Inflation) é aquela taxa que, se aplicada a um papel pós fixado, produzirá um rendimento nominal equivalente ao de um título pré fixado de mesmo prazo. Ela é determinada comparando-se, no mesmo instante, o rendimento nominal de um papel pré fixado com o rendimento real de um papel pós fixado do mesmo prazo e emissor.

SE a inflação real que vier a acontecer for maior que a inflação de equilíbrio prevalecente na data de compra do papel, o investidor que comprou um papel pós fixado terá um rendimento superior àquele que investiu num papel pré fixado, e vice versa.

Tal taxa de equilíbrio reflete instantaneamente:

  • um pouco da expectativa quanto à inflação futura;
  • um pouco do valor do prêmio que o investidor está pagando para se proteger da inflação futura ao comprar um papel pós fixado ao invés de um papel pré fixado do mesmo prazo e emissor.
NTN-B's são títulos pós fixados emitidos pelo Tesouro e indexados à inflação. NTN-F's são títulos emitidos pelo Tesouro, porém com juros pré fixados. Com base nos preços de mercado destes papéis (aqueles praticados no Tesouro Direto, por exemplo), é possível se calcular diariamente tal taxa de equilíbrio para diversos prazos. O gráfico abaixo ( Bloomberg) mostra a evolução da taxa de equilíbrio dos papéis pós fixados de 3 anos, desde 2013:





Vemos que:
  • até 2013 a inflação de equilíbrio implícita nos papéis pós fixados, quando comparados com os pré fixados de 3 anos de prazo, estava ao redor de 5,5% a.a., ou seja, apenas 1% acima do centro da meta de inflação fixada pelo BC ( 4,5% a.a.),  mas abaixo do topo da banda de metas ( 6,5% a.a.);
  • de 2013 até recentemente, tal inflação de equilíbrio ficou ao redor de 6,5% a.a., ou seja, próxima ao topo da meta de  inflação;
  • de agosto para cá tal taxa disparou, batendo mais de 8% a.a.
Conclusão: os mercados estão exigindo prêmios cada vez maiores para oferecer proteção inflacionária de médio prazo aos investidores de renda fixa.  O prêmio, que era de 1% a.a. acima do centro da meta de inflação do BC em 2013, hoje bateu 4% a.a. 

Traduzindo: a crise fiscal e de governabilidade está afetando a estabilidade monetária do R$. Isto coincide com a escalada do dólar, que hoje passou da marca histórica de R$ 4,00.  Isto faz todo sentido, pois inflação elevada e desvalorização cambial andam sempre de braços dados, pois uma realimenta a outra.

A má notícia é que taxas de equilíbrio elevadas reforçam expectativas altistas para a inflação futura por parte dos agentes, o que acaba exigindo a permanência de juros Selic elevados por mais tempo.

Esta crise está começando a ficar com cara de catástrofe..,








segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Meirelles manda recado: limite para gastos públicos

Ex presidente do BC do B na era Lula apoia a tese de se impor um limite constitucional ao gasto público vinculado ao PIB nominal. Sem isto não iremos a lugar algum neste debate sobre ajuste fiscal. Ou ficaremos indo de crise fiscal em crise fiscal. E perder tempo no varejo do debate político sobre reformas com forte impacto distributivo, como no caso da reforma tributária e da previdência, significa ficar tentando apagar o incêndio na floresta árvore por árvore.  Sem falar nestes ajustes fiscais emergenciais, que só causam confusão econômica e política. 

Precisamos focar na floresta do gasto público e colocar um limite no gasto agregado. A partir deste limite, a sociedade poderá decidir suas prioridades de gasto e de alocações orçamentarias e definir como estes gastos devem ser financiados através de uma carga tributária progressiva e que desonere a produção. Deste debate sairão as reformas necessárias para fazer com que os gastos caibam no limite fixado em lei e decidir quem pagará os impostos. 

Nesta mesma linha, precisamos fazer uma reforma patrimonial no estado para reavaliar quais ativos de fato precisam ficar no setor balanço do público ou devem ser privatizados, como as reservas cambiais, empréstimos no BNDES, empresas estatais deficitárias e bens imóveis. 

Esta é a única forma de reduzirmos as taxas de juros no Brasil de forma sustentável. 

Se este governo terá força e entendimento sobre tal necessidade? Não creio, pois Dilma já se opôs a isto no passado quando era Ministra. E Levy parece estar mais preocupado com nossa sobrevivência de curto prazo, algo louvável mas insuficiente, pois podemos nadar, nadar, nadar e morrer na praia se não endereçarmos as duas principais questões estruturais do momento:




Vale a pena ler coluna de Meirelles, pois estamos chegando perto do consenso com relação a isto:

domingo, 20 de setembro de 2015

Rebaixamento = juros mais altos

Veja o que acontece com os nossos juros internos quando nossa nota de crédito é rebaixada:

Carga tributária Alemã com serviços públicos no padrão mexicano?

Na qualidade de pato contribuinte, tenho tentado me defender do Leão e deste governo gastão, trazendo mais aliados que estejam comigo na lagoa dos patos para a luta contra o aumento da carga tributária. Porém, tem gente achando que ainda dá para aumentar carga tributária.

Enquanto a nossa esquerda recomenda que se aumentem ainda mais os impostos no Brasil e assim se evitem os necessários cortes de gastos públicos, eu preferi ir atrás de informações sobre nossa carga tributária e ver como ela se compara a outros países. Encontrei este trabalho da OECD:

http://www.oecd.org/tax/revenue-statistics-in-latin-america-2310922x.htm

Nele há uma página interessante que mostra a nossa carga tributária comparada com nuestros hermanos latino americanos e bolivarianos e com a média da OCDE:

Veja quem faz parte da OECD:

http://www.oecd.org/about/membersandpartners/

 e aqui suas cargas tributárias:

http://www.keepeek.com/Digital-Asset-Management/oecd/taxation/revenue-statistics-2014_rev_stats-2014-en-fr#page86

Em primeiro lugar, vemos em verde abaixo que a nossa carga já é a maior da América Latina, bastante superior a do Chile, economia mais estável da região (vermelho) e acima da média da OCDE ( amarelo):




Vemos também que os leões bolivarianos não são tão agressivos como o nosso.

E vemos abaixo que apenas 13 dos 34 países do OCDE  possuem cargas tributária acima da nossa. Países estes que em sua maioria está um estágio de desenvolvimento bem acima do nosso e apresenta um nível de serviço público incomparável:







Ou seja, propor que paguemos mais impostos para equilibrar os gastos públicos que não param de crescer, como mostra a tabela abaixo:




equivale a propor que tenhamos uma carga tributária superior à Alemã ou Holandesa em poucos anos. 

Ou seja, isto equivale a chamar a gente de pato, algo que Gallo odeia:





Menos gente, menos.












quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Cenário de crédito se deteriora velozmente

Veja o que está acontecendo com os pedidos de Recuperação Judicial ( antiga concordata). E olha que as RJ's de hoje refletem normalmente problemas de crédito que começaram a mais de um ano., pois acompanham o quadro econômico com atraso. Ou seja, isto vai piorar ainda e muito.... muito...

E  olha que aperto discal nem começou.... nem começou.

Empresários:

  • cuidado com suas vendas a prazo
  • aumentem seu caixa
  • saquem suas linhas de credito junto aos bancos antes que sejam cortadas
  • reduzam estoques
  • e rezem.



Cristiano Romero do Valor toca na ferida: Dilma acredita mesmo no que está fazendo??

De fato, dá uma sensação que a presidente esteja fazendo o ajuste por que precisa e não por que acredita nele. Se for verdade, este ajuste seria mais uma mentira, e só vai gerar custos. Mas abandonar o ajuste significa quebrar de vez com o país e nos isolar dos mercados de capitais internacionais, assim como aconteceu com Argentina e Venezuela. 

Mas concordo plenamente que estas contradições e idas e vindas vão acabar minando a autoridade da Presidenta dentro do próprio Planalto, o que significaria a perda final da governabilidade que lhe resta, lamentavelmente.

Como sou radicalmente contra o conceito de impeachment econômico, caso este cenário acima se materialize, torço pelo bom senso de todos, inclusive da nossa líder.

Leia a excelente coluna do jornalista:


A resistência de Dilma - Por Cristiano Romero – Valor 16/9


Nem a trágica perda do grau de investimento, com suas duras consequências na economia real, parece ter dotado o governo da presidente Dilma Rousseff do senso de urgência necessário para enfrentar a grave crise que assola o país. As medidas fiscais anunciadas na segunda-feira mostram que a presidente segue resistente ao fato de que, agora, não há alternativa possível: é preciso cortar gastos, inclusive, na área social.


A debilidade política do governo prenuncia outro desastre: dificilmente, o Congresso aprovará a recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), cuja arrecadação esperada - R$ 32 bilhões - representa quase 50% do esforço fiscal anunciado para 2016. Nunca é demais lembrar que, em 2007, com a economia crescendo em torno de 6% ao ano e a inflação rodando na meta (4,5%) - um fato inédito -, o presidente Lula, reeleito e tendo superado o escândalo do mensalão, desfrutava de elevada popularidade e, mesmo assim, não conseguiu convencer o Congresso a estender a cobrança do tributo, extinto naquele ano.


Dilma resiste à realização de cortes no orçamento, especialmente, nos programas criados por ela ou sob sua inspiração política no segundo mandato do governo Lula. Os melhores exemplos são o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento. Nos dois casos, em vez de simplesmente eliminar despesas que não podem ser feitas agora, a presidente as transferiu para outras fontes, uma solução com déficit de seriedade.


A situação da presidente não é, de fato, fácil. Com popularidade abaixo de 10%, ela vem sofrendo há meses com manifestações de rua ruidosas contra seu governo. Recentemente, foi beneficiária de duas iniciativas em defesa de seu mandato, ambas organizadas pelo PT e alguns movimentos sociais. O problema é que esses grupos defenderam a presidente, mas bateram sem piedade no teor do ajuste fiscal. Diante disso, como governar contra a base social que a apoia? Isso dá uma noção da tragédia em  curso no Brasil.


Dilma é refém do discurso que a reelegeu. Ela quis fazer crer que o país passa agora por dificuldades porque seu governo teria tomado, corretamente, a decisão de adotar um sem-número de medidas para proteger, dos efeitos da "crise internacional", investimentos e empregos entre 2011 e 2014. Esse discurso é falso como uma nota de três reais: mesmo com o crédito farto e a montanha de subsídios concedidos pelo BNDES, a queda forçada da taxa de juros, a desvalorização administrada da taxa de câmbio, a redução da poupança do setor público e as desonerações tributárias, os empresários, em vez de aumentar, reduziram os investimentos. A razão: dadas as inconsistências da política econômica, faltou confiança. Os empregos, por sua vez, só foram mantidos graças a uma política desmedida de transferência de renda e estímulo ao consumo, que agora cobra o seu preço.


O governo, não se tenha dúvida, não cortará os gastos que precisa cortar. Vai protelar o máximo possível. Em conversas reservadas, técnicos da equipe econômica têm dito coisas do tipo: "Olha, lá no orçamento está dito que vamos gastar X bilhões em tal rubrica, mas, na prática, não vamos não". A prática do corte-na-boca-do-caixa é comum no Brasil, uma vez que o orçamento público é uma peça de ficção, mas o anúncio reservado da intenção de não gastar não faz preço, isto é, não melhora as expectativas dos agentes econômicos nem das agências de classificação de risco.


Dilma, assessorada por seu ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, se preparava para dar uma guinada na política econômica com a qual se comprometeu no início do atual mandato. A ideia era que, após o "fracasso" precoce do ajuste fiscal liderado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o jeito seria colocar a economia para crescer, mesmo com aumento da inflação e da dívida pública. Com o PIB se expandindo, o problema fiscal seria resolvido e todos ficaríamos felizes.


A perda do grau de investimento não sepultou os planos da guinada, mas enfraqueceu a estratégia de se fazer isso já. Nem Dilma nem Barbosa mudaram seu DNA: ambos ainda acreditam que, com a concessão de estímulos fiscais e monetários, a economia brasileira voltará a crescer, mesmo em meio à deterioração fiscal e à elevação da inflação.


Num ambiente internacional bem mais favorável que o de agora, os empresários se recusaram a aumentar os investimentos quando a Nova Matriz Econômica, em 2012, derrubou a taxa básica de juros (Selic) para 2% ao ano em termos reais - hoje, está em 4,31% -, e promoveu forte depreciação da taxa de câmbio, tirando-a de R$ 1,70 para R$ 2,00 em curto espaço de tempo. Por que investiriam agora?


Quando perceberam que o governo ensaiava mudanças na economia, empresários e banqueiros que protagonizaram um movimento de concertação para acalmar os ânimos em Brasília e apoiar o mandato da presidente deram-lhe um ultimato: voltar ao curso do ajuste fiscal, com entrega de superávit primário de 0,7% do PIB em 2016 - insuficiente, diga-se de passagem, para estabilizar a relação entre dívida bruta e PIB -, sob pena de perda do apoio recebido.


Dilma não chegou a ignorar os sinais, mas reagiu à sua maneira. O pacote para entregar o esforço de 0,7% do PIB saiu depois da perda do grau de investimento, mas veio marcado, como se viu, pela resistência da presidente em cortar despesas. Mais uma vez, o governo transferiu ao Congresso a responsabilidade de resolver os problemas, muito provavelmente sabendo que os parlamentares não concordarão em assumir o ônus do aumento de impostos.


Com dificuldades de colher votos até em sua base de apoio, o governo dificilmente conseguirá aprovar o pacote. Deveria, portanto, ter invertido a tática: cortar na própria carne e contar o mínimo possível com a ajuda do Poder Legislativo.


Hoje em Brasília tudo é muito precário porque Dilma não transmite confiança nem aos auxiliares. Politicamente, com a situação econômica em franca deterioração, as coisas tendem a piorar. O quadro é imprevisível, mas, à medida que os fracassos se acumulam e a economia afunda, cresce a expectativa de eventos extraordinários e dramáticos, como impeachment e renúncia.


Palavras de um vivente, testemunha ocular do que ocorre na cúpula do poder: "O Palácio vive um clima de desmando, de desordem. Parecem não saber nem como lidar com a boataria básica. Começo a temer pela governabilidade real. Do cotidiano".

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Nosso mega Junk Bond

Os títulos de nossa Gloriosa Petrobrás, símbolo máximo do Estatismo, Intervencionismo, Patrimonialismo e Clientelismo de nosso governo nos últimos 12 anos,  é hoje o nosso maior Junk Bond, ou seja, título de grau especulativo de investimento emitido por empresas brasileiras. Com o rebaixamento da nota do Brasil pela S&P no dia 9 último, a S&P rebaixou a nota da empresa, retirando seu grau de investimento, algo que já havia sido feito pela Moody's no início do ano.

São mais de US$ 44 bilhões em títulos da empresa nas mãos de investidores internacionais, títulos que se tornaram Junk Bonds oficialmente quando a segunda agência classificadora de risco  (S&P) os rebaixou recentemente.

Nunca antes na história deste país uma empresa deveu tanto. Em junho último, o total da dívida da empresa chegava a mais de R$ 400 bilhões, ou o equivalente a mais de 7% do PIB do Brasil!!! E com a alta do dólar das últimas semanas este número deve ter subido bastante, uma vez que 80% de sua dívida é em moeda estrangeira.

A empresa, que chegou a investir mais de US$ 40 bilhões, já reduziu para US$ 25 bi este ano, por ano precisará cortar ainda mais seus investimentos se quiser honrar suas dívidas. E provocar mais demissões e quebras entre seus fornecedores

Ou seja, é muito provável que a empresa precisa de uma nova rodada de aumento de capital com apoio financeiro do Estado nos próximos anos. Mais um rombinho fiscal nos espera....

Veja o que aconteceu com o preço de seu título de 30 anos de prazo nos últimos 12 meses:




Ele caiu 30%, sendo hoje negociado com desconto de 35% SOBRE SEU VALOR DE FACE.

Para bom entendedor, 1/3 de queda basta....

Estado grande dá nisto....socializa o prejuízo para nós, contribupatos!











terça-feira, 15 de setembro de 2015

Risco Brasil está acima do junk americano

Pela primeira vez desde 2006 o risco Brasil capturado pelos derivativos de crédito de 10 anos está acima do risco dos papéis abaixo de grau de investimento nos EUA:






Nos últimos 9 anos nosso risco de crédito de 10 anos esteve em média 3,4 pontos percentuais abaixo do risco médio dos papéis de empresas de alto risco nos EUA (reta vermelha). Hoje está 0,15 pontos percentuais acima, marcado em roxo no gráfico amarelo que mostra a diferença entre a nossa taxa de risco e a taxa de risco dos papéis emitidos pelas empresas junk nos EUA.

E em marrom vemos que a piora na nossa qualidade de crédito começou lá em 2011 ( marrom).

Ou seja, nosso risco relativo subiu 3,5 pontos percentuais. Isto significa que o custo de um investimento por 10 anos no Brasil vs. numa empresas junk nos EUA subiu 30% em função da elevação do custo de capital relativo.

Ruim pacas para quem precisa de investimentos em infraestrutura.

Ou equacionamos o lado fiscal ou isto vai piorar ainda mais. 



Da fábrica de iogurte ao colapso fiscal

Economia é muito simples. Ela apela a princípios básicos de bom senso financeiro que todo chefe ou chefa de família usa no seu dia a dia. Contudo, como toda área do conhecimento, ela usa conceitos abstratos para representar tais princípios e se vale de uma linguagem muitas vezes bem complexa. Um dos meus prazeres é tentar traduzir estes conceitos para uma linguagem que as pessoas não versadas no assunto possam compreender e assim entender o que diabo está acontecendo com a nossa economia e o que nos trouxe até aqui.

Creio que esta fábula abaixo pode ajudar neste sentido. Imagine a seguinte situação:

Você montou uma fábrica de iogurte com frutas numa pequena cidade do interior com mil habitantes. Dimensionou tal fábrica para que ela produzisse 800 iogurtes por dia, pois esta seria a quantidade de habitantes da cidade com poder aquisitivo suficiente para comprar tais iogurtes. Contratou oito operários, fez contratos de fornecimento com os leiteiros da região que lhe garantiram o suprimento de leite suficiente para atender este nível de produção e comprou equipamentos.

O prefeito da cidade, seu amigo, decide então promover a bolsa iogurte, para todos aqueles habitantes mais carentes (200) terem acesso ao produto [populismo]. Desta forma, ele decide promover o crescimento da indústria de iogurte na cidade [dirigismo], para gerar produção, impostos e empregos locais, impedindo assim a importação de iogurtes de outras cidades [protecionismo]. Ele estima que o aumento da produção de iogurte em 25% irá gerar os impostos necessários para manter o subsídio dado à bolsa iogurte.

Como ele é seu amigo, ele lhe dá uma lista [clientelismo] destes habitantes mais carentes que poderão ir todo dia a sua fábrica e levar um iogurte de frutas de graça. No final do mês você apresenta a conta ao prefeito que lhe deposita a grana imediatamente em sua conta no banco.

A demanda de sua fábrica salta imediatamente 25% e você precisa contratar mais gente, investir em equipamentos e ampliar seus contratos de fornecimento. O prefeito deposita então dinheiro da prefeitura sem nenhuma remuneração no Banco da Cidade e pede ao gerente do banco amigo [patrimonialismo] que empreste estes recursos a você e a seus fornecedores com o propósito de financiar a ampliação da produção de iogurtes, mas cobrando juros bem baratinhos para aumentar a competitividade da produção local de iogurte vis a vis o produto importado [crédito subsidiado].

Porém, você descobre durante a contratação dos padeiros, que seus salários subiram bastante devido à falta de mão de obra qualificada na sua região [falta de capital humano]. Você também descobre que precisa comprar leite de outras regiões, pois as vacas da sua região não conseguem aumentar a produção em 25% de forma sustentável, já que não eram tão produtivas como se esperava [baixa produtividade].  Isto tudo acabou encarecendo em 33% o custo de seu produto. Com seus custos subindo, você não teve escolha, senão subir o preço do iogurte. Porém, a alta da inflação do iogurte fez com que a demanda pelo produto caísse. Suas vendas e produção voltaram assim para 800 / dia, 200 iogurtes subsidiados pelo Município e 600 vendidos a seus consumidores tradicionais, que cortaram seu consumo em 25% em função da alta do preço.

Você e seus fornecedores de leite então ameaçam demitir seus funcionários recém-contratados e dar calote no empréstimo tomado junto à prefeitura. Mas, como era ano eleitoral, a prefeitura decide então reduzir os impostos cobrados sobre o iogurte e sobre o leite. O custo de tal redução de impostos para os cofres públicos equivale ao valor de 200 iogurtes, o que lhe permite manter o preço baixo e a venda volta então 1000 iogurtes.

Imagine agora que a prefeitura entre em crise fiscal, ou seja, ela não consegue mais gerar recursos para financiar o buraco causado no orçamento pelos subsídios dados na bolsa iogurte e pelo corte de impostos, que agora montam o equivalente ao valor de 400 iogurtes dia, 200 para bancar a bolsa iogurte e 200 para cobrir a desoneração de impostos. O município então precisa recorrer a empréstimos junto a pessoas como você, que estão gerando lucros com a venda de iogurte. Você passa a investir seus lucros acumulados não mais no aumento da produção, tampouco na redução da dívida que tem com o banco, mas em empréstimos para a prefeitura, pois, se não o fizer, suas vendas despencam. Logo, todo dia você empresta recursos equivalentes ao valor de 200 iogurtes para que a prefeitura possa bancar assim o corte de impostos.

Você segue então produzindo e vendendo mil iogurtes por dia, pagando a seus funcionários bons salários e emprestando cada vez mais à Prefeitura. A população carente fica feliz com a bolsa pão.  Todo mundo fica contente. O Prefeito ganha então a eleição, com contribuições suas e de seus fornecedores para a campanha, com forte apoio dos 200 beneficiários da bolsa iogurte e dos 10 operários bem remunerados em sua fábrica, que formam assim o sindicato dos iogurteiros.

Contudo, o endividamento da prefeitura começa a subir de forma preocupante. Com medo de não receber sua grana de volta, você decide subir os juros cobrados da prefeitura, o que a leva a se endividar cada vez mais para cobrir os juros pagos. Chega a determinado ponto em que o prefeito bate no limite de endividamento fixado pela Lei de Responsabilidade Fiscal.  Ele, contudo, contrata um contador gaúcho bem criativo que sugere que a prefeitura passe a depositar no banco a grana para te pagar a bolsa iogurte, não mais no último dia do mês como combinado, mas no primeiro dia útil do mês seguinte. Ao mesmo tempo, o contador gaúcho pede ao banco amigo que adiante a você os recursos devidos no último dia do mês, conforme combinado.  Com isto o prefeito empurra as despesas com a bolsa iogurte um mês para frente [falta de transparência], enquanto você continua recebendo normalmente seu dinheiro no dia combinado. Tudo perfeito, né?

O prefeito segue assim pedalando tal despesa para frente, até que o tribunal de contas do município descobre o esquema e impede a pedalada. Neste momento o prefeito se vê numa encrenca: ao reverter a pedalada, o rombo nas contas do município explode. Isto exige um forte ajuste fiscal, com corte em despesas ou aumento de receitas. Ao invés de interromper o programa bolsa iogurte, o prefeito opta por aumentar as receitas e passa a tributar fortemente a venda de iogurte e a produção e leite. O custo do iogurte sobe e a venda desta forma cai, para 700 iogurtes dia. Além disto, o prefeito decide retirar parte do dinheiro da Prefeitura que estava depositado no Banco para poder assim cobrir as despesas do município.  O Banco se vê então forçado a subir os juros cobrados de você e de seus fornecedores nos empréstimos contratados para a ampliação da produção.

Você entra em desespero, demite três operários, corta a produção e deixa o equipamento comprado para a ampliação da produção se sucatear, pois precisa cortar os gastos com sua manutenção.  O sindicato dos iogurteiros entra em greve e você interrompe a produção de iogurte por dois meses. Seu faturamento despenca e fica insuficiente para cobrir os juros devidos no empréstimo tomado junto ao banco. Você então deixa de honrar os encargos do empréstimo devido ao banco e entra em recuperação judicial.  A produção se estabiliza em 700 iogurtes.  O banco leva um baita prejuízo e corta assim a oferta de crédito a outros empresários da região, sufocando a produção e as vendas das empresas de outros setores. Isto derruba ainda mais a arrecadação de impostos, o que leva a prefeitura a cortar mais gastos e subir mais impostos para cobrir seus rombos.

Pegue esta história e multiplique por milhões e entenderá o que aconteceu com o Brasil nestes últimos quatro anos.
O PIB (produção de iogurte bruto) da cidade subiu de 800 para 1000 em função do subsídio dado pelo governo na compra de bens.  E caiu para 700 em função do desmanche da pedalada, da crise fiscal do município e da quebra da empresa.  O potencial de produção futuro da fábrica caiu de 1000 para 800, uma vez que a capacidade adicional criada neste período de euforia de gastos públicos foi sucateada por falta de grana para sua manutenção durante a crise. O emprego, que estava inicialmente em oito, subiu para 10 na euforia, mas caiu para sete com a crise. A arrecadação de impostos, que acompanhou o faturamento da fábrica, subiu 25% inicialmente, mas foi insuficiente para cobrir a perda com as desonerações tributárias e os gastos da bolsa iogurte. Assim, o endividamento público subiu de forma explosiva. O endividamento privado também subiu, causando perdas para os bancos e para o estado. A confiança na contabilidade da prefeitura foi para o saco em virtude das pedaladas.

Ou seja, esta fábula descreve os efeitos fiscais devastadores de uma política fiscal e monetária expansionista, tendo como base o crédito subsidiado, dirigismo, falta de transparência, clientelismo e populismo, num ambiente de falta de capital humano e de baixa produtividade, com despoupança do setor público e do privado.  Vamos levar anos limpando esta confusão, que traz, além de custo econômico, um estresse político violentíssimo, num momento em que a nossa Prefeita goza de níveis baixíssimos de popularidade, mesmo sem ter começado a tomar as medidas duras necessárias para reverter este quadro.

  A nossa vaca leiteira de fato foi para o brejo. E vai ser muito difícil tirá-la de lá.



Credibilidade zero

Esta foi a reação do mercado de câmbio ao primeiro dia do novo pacote:


O nosso Real amarelou. BRL é a pior moeda do dia entre as principais emergentes. Até o Rublo está se valorizando. Ou seja, ninguém está acreditando neste pacote de ajuste.  A reação do Congresso ontem foi péssima. Só a Febraban apoiou...

Faltaram os tais cortes de despesas. E não se endereçou nenhuma das questões estruturais do gasto público. 

Enquanto não colocarmos um limite no gasto público, a casa caiu.

PS: BC vai ter coragem de subir juro para ancorar expectativas neste ambiente?? 


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

E carga tributária vai aumentar mais uma vez....

Ajuste Fiscal anunciado para 2016 foi de 66.3 bi, sendo:

  • 28.4 bi em nova carga tributária, com criação da contribuição de R$ 30 bi da Contribuição Provisória de movimentação financeira por 4 anos....
  • 26 bi em corte de despesas, 
  • 11.9 bi de realocação e gastos
Assim chegaremos aos 0,7% do PIB de superavit primário em 2016. 

Bem,  quando vamos por um limite para o gasto total do governo para não mais vivermos esta situação horrorosa??

Quando vamos acabar com estes aumentos de carga tributária? 

Disciplina do gasto sem limite para o gasto????

Olha a foto do contribuinte brasileiro:








Agora quem deve são as empresas

O quadro de endividamento externo do Brasil hoje é muito diferente daquele dos anos 90, quando o governo estava exposto ao risco cambial. Naquela época o Estado estava endividado em dólares, seja através da dívida externa assim como da dívida interna, e de swaps indexados ao dólar.

Hoje nosso estado é credor em cerca de US$ 190 bi, pois, nossas reservas somam 375 bi, enquanto a dívida em US$ do setor público está ao redor de 70 bi e o volume de swaps é inferior a US$ 110 bi. Ou seja, para cada R$ 0,10 que o dólar sobe, o estado gera um ganho de R$ 19 bi. Este ganho, contudo, só será de fato realizado se e quando o BC vender suas reservas.

Por outro lado, as empresas, diretamente ou indiretamente através dos bancos, acumularam desde de 2009 um montante expressivo de dívidas em dólar, como mostram os gráficos abaixo azul e preto abaixo:





Ou seja, esta turma teve suas dívidas aumentadas em cerca R$ 300 bi de janeiro para cá.

Dá para imaginar o aperto que esta turma vai passar para pagar estas dívidas. Isto equivale a um mega aperto monetário. Se colocarmos as contas públicas no lugar, reduzindo o risco fiscal do país, abriremos um espaço enorme para uma queda de juros em escala impressionante.

Uma ponte para algum lugar

O Ministro Levy, em artigo no Estadão de hoje, coloca com clareza a necessidade de reformas estruturais visando estabilizar gasto público. E destaca a necessidade de um esforço fiscal maior em 2016, que sirva como ponte para tal ajuste, para que possamos manter o grau de investimento nas duas agências que ainda não nos rebaixaram.
Concordo 100% com o diagnóstico do Ministro Levy. Porém, para que este processo funcione, é preciso:
a. que sejam feitos cortes de gastos de, no mínimo, 20 bilhões no orçamento para o ano que vem;
b. que sejam criadas contribuições temporárias e não novos impostos, por no máximo 3 anos, para recompor o superavit para 0,7% do PIB em 2016;
c. que se apresente proposta de PEC que crie um limite para gasto público, deixando todas as vinculações de receitas & gastos obrigatórios sujeitos ao cumprimento deste limite;
d. que seja apresentada uma proposta de reforma da previdência com apoio do PMDB e PT;
e. que seja anunciado um plano de redução dos subsídios do BNDES;
Feito isto, podemos de fato dizer que estamos caminhando para a sustentabilidade fiscal. Mas o corte de gastos já é um bom começo, desde que de fato ocorra. Quanto às contribuições temporárias, sugiro espalhá-las bem, para não onerar um setor específico da sociedade apenas. Agora, se não tiver esta agenda mais abrangente, a sociedade tem a obrigação de negar qualquer aumento de impostos. É nossa obrigação combater o Estado grande, ineficiente e corrupto. Patriotismo é isto. Será nossa herança aos nossos filhos. Chega. Basta. 
Veja artigo no link abaixo:

sábado, 12 de setembro de 2015

O tamanho do pepino fiscal


A série de eventos dramáticos envolvendo as contas públicas deste ano requerem uma pequena pausa para reflexão.  Previsões de superávits excessivamente otimistas e frustradas, orçamento deficitário e rebaixamento de nossa de crédito foram o pano de fundo de uma economia que entra em recessão e da confiança de consumidor e empresários que despenca. Vamos sair um pouco das atrapalhadas na gestão do processo por parte do pessoal de Brasília e tentar focar na figura macro que está por trás de nosso problema.

DE 2005 até 2014 as despesas anuais do governo central subiram uma barbaridade:





São 2,5% do PIB anual de aumento de despesas quando comparamos 2005 com 2014, ou seja, 138 bilhões de reais por ano a mais de gastos em valores de 2014.  Se somarmos nesta conta as pedaladas fiscais do Guido que protelaram mais ou menos uns 0,5% do PIB em despesas de 2014 para 2015, chegamos a 3% do PIB anual de aumento de gastos, ou seja, a despesa vem crescendo a mais de 0,3% do PIB por ano.  Dado que nosso PIB real cresceu em média 3,5% a.a. neste período, isto quer dizer que os gastos do governo cresceram a mais de 5% a.a. acima da inflação!  Se mantivermos este ritmo alucinante de crescimento de gastos públicos, as despesas reais crescerão mais de R$ 50 bi / ano no governo federal somente, que precisaram ser cobertos com mais impostos ano após ano. Ou seja, é insustentável continuar a gastar nesta velocidade.

Para piorar o quadro, Estados e municípios seguiram o mesmo ritmo de aumento de gastos, como mostra o gráfico abaixo:





DE 2005 a 2013 as despesas dos estados e municípios subiram de 11,6% do PIB para 13,5% do PIB. Ou seja, 0,24% do PIB a.a.

Somando tudo, vemos que o Estado Brasileiro gasta (sem contar os gastos com juros) cerca de 33% do PIB por ano, gastos que crescem anualmente 0,6% do PIB. Desta forma, vamos ter que, a cada 2 anos criar um novo CPMF se desejarmos manter o saldo fiscal onde está hoje!

Sumário: em 2014 o Estado Brasileiro gastou cerca de 5% do PIB a mais do que gastava em 2005, ou seja, R$ 275 bi! Mais de R$ 20 bi por mês.  Muito mesmo.

Para agravar a situação, o nosso Estado precisou pagar juros cada vez maiores para financiar sua dívida em função da elevação da inflação dos últimos anos. Isto fez com que o déficit nominal (resultado do governo após pagar juros da dívida) subisse bastante depois de 2013:





O resultado disto, somado às baixíssimas taxas de crescimento do PIB que tivemos desde 2011, é que nossa dívida pública consolidada, que já não era tão pequena, inverteu sua trajetória de queda e passou a subir com enorme velocidade:





O abuso fiscal do Estadão Gigantão Amigão foi além. O governo utilizou seu balanço e do Banco Central para acomodar ativos privados, como empréstimos do BNDES e reservas internacionais, dando um mega impulso de crédito na economia:





Os saldos ativos do Estado investidos no BNDES (via FAT, PIS/Pasep, repasses do Tesouro) saltaram 6,6% do PIB no período, enquanto os ativos de nosso BC aumentaram o equivalente a 15,1% do PIB em função das reservas cambiais acumuladas. Tais ativos são bastante seguros, porém rendem quase nada quando comparados com os juros que o Tesouro paga para financiá-los. Estes dois eventos geraram uma força impulsionadora do endividamento público equivalente a 21,7% PIB em 9 anos, ou seja, um crescimento  anual de cerca de 2,4% do PIB: R$ 133 bi / ano em valores de 2014.

Se somarmos esta expansão de balanço público ao crescimento dos gastos anuais do Governo, chegamos a uma pressão expansionista do endividamento público da ordem de 3% do PIB ao ano. Ou seja, mais de R$ 165 bi / ano.

Tudo isto é completamente insustentável.

É preciso com urgência reduzir o tamanho destes ativos do setor público que oneram as contas públicas e impor um limite para o gasto público com % do PIB em nossa constituição, sujeitando todas as vinculações orçamentárias obrigatórias ao cumprimento deste limite, ou seja, gastaremos dentro de um limite máximo de orçamento fixado em lei e definido pelo Congresso.
Se não fizermos isto, vamos precisar de um Super Levy a cada 3 anos para nos tirar do buraco, só que cada vez com mais rebaixamentos até um dia chegarmos na condição Grega. E não adianta ficar apenas focado no superávit de 2016, caro Ministro. Precisamos ir a fundo nas enormes distorções criadas pelas políticas públicas desenvolvimentistas dos últimos anos.

Pergunta que não quer calar na mente dos desenvolvimentistas ainda de plantão: será que  o país vai conseguir crescer sem estes 3% do PIB de estímulo anuais? Será que Lula, aquele de Palocci e Meirelles do primeiro mandato, está correto ao dizer que ajuste fiscal só leva ao desemprego?

Meu pitaco: talvez, sem estes estímulos,  o BC poderá praticar taxas de juros civilizadas para conter a inflação, 1 ou 2% reais, como ocorre em outros países. Talvez esteja aí a raiz dos nossos juros elevados. Com 2% de juro real e com gastos públicos estáveis, nossa economia sem dúvida voltará a crescer, agora sozinha, sem a ajuda do bônus das commodities, do capital internacional especulativo, sem a moleza do BNDES e sem um BC que esteriliza as reservas cambiais com títulos de 60 dias de prazo e redescontáveis a qualquer momento sem penalidade, que são na verdade depósitos remunerados de um dia. Mas isto é assunto para outro post.